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“No fundo, todos temos necessidade de dizer quem somos e que é que estamos fazendo e a necessidade de deixar algo feito, porque esta vida não é eterna e deixar coisas feitas pode ser uma forma de eternidade.”
(José Saramago, no blogue “Outros cadernos de Saramago”)
Vita brevis
Ateu, comunista ferrenho; mal humorado, sisudo até. Desesperançoso. Gênio. São poucas e pequenas as características que, apontadas aqui, definem o espírito do escritor lusitano José de Sousa Saramago, morto no último dia 18, aos 87 anos de uma produtiva vida. Mais que livros, Saramago deixou-nos um legado. Suas obras, magistrais, trouxeram a literatura mundial a um novo patamar.
Não se pretende, nesse curto espaço, fazer uma análise de tão vasta produção artística: seria tolo e impossível. À força do hábito, no entanto, não podemos nos furtar uma pequena biografia do escritor que, nascido na vila de Azinhaga, filho de agricultores semianalfabetos, foi o primeiro a trazer o Nobel de Literatura à língua portuguesa. Sua fusão de estilos, que vazavam o modernismo e o pós-modernismo literário, estabeleceu uma narrativa única, repleta de alegorias e capacidade imaginativa.
Por isso mesmo, podemos dizer que suas obras se confundem com firmes e polêmicas opiniões. Do ateísmo convicto, registrado no mais recente livro “Caim” e, principalmente, em “O evangelho segundo Jesus Cristo” – em que tecia a vida do avatar cristão de um ponto de vista bastante humano e absolutamente antirreligioso –, às críticas aos sistemas de produção político-culturais capitalistas (como em “Todos os nomes” ou em “Manual de pintura e caligrafia”), o velho escritor tecia, sob prismas ficcionais, toda uma realidade perversa e desapontadora. Não poupava ninguém: sobravam farpas venenosas a tudo o que considerava veementemente equivocado.
Vai daí sua fama de carrancudo comunista; para Saramago, no entanto, falta-nos muito mais que fé: sofremos da grave crise de poder de reflexão. E que se clareie: reflexão, aqui, não tem necessariamente a ver com estudo. Seu maior ídolo era seu avô: analfabeto, rude. Mas que lhe ensinou a vida.

Ars longa
Ah, meus caros, mas foi na vertente social que sua literatura fluiu. Suas metáforas sobre o mundo, pode-se dizer, ganharam vida. Quando colocou a Península Ibérica para navegar pelo Atlântico, separada do continente num pós-terremoto desastroso, em “Jangada de Pedra”; ou quando construiu uma Portugal fictícia em pleno século XIX, em “Memorial do Convento”; ou ainda quando fez a morte tirar férias e não matar mais ninguém, em “As intermitências da Morte”, o escritor destilou ironias e desprezo pelos valores morais que cultivamos. Queria, com isso, talvez, tirar-nos da inércia; queria nossa (olha ela de novo!) capacidade de reflexão.
Ok. A gente sabe que ler Saramago é difícil. Mas por que não dar uma chance a ele? Um belo e emocionante começo pode ser pelo curta “A maior flor do mundo”, facilmente encontrado no Youtube (http://www.youtube.com/watch?v=YUJ7cDSuS1U). Uma das únicas incursões do autor pela literatura infantil, a animação de 2006 do uruguaio Juan Pablo Etcheverry mistura, num curta extremamente emotivo, a suntuosa música da Orquestra Sinfônica de Tenerife e a narrativa do próprio autor. O conto, metalinguístico, traz uma reflexão extremamente delicada sobre a esperança. Pelos olhos de uma criança. Como se a esperança, em si, fosse algo tão pueril que só pudesse ser vista por esse ângulo. Lindo.
A outra (forte) adaptação de uma obra do autor é o longa-metragem “Ensaio sobre a cegueira”, dirigido por Fernando Meireles, brasileiríssimo, consagrado por “Cidade de Deus” e “O jardineiro fiel”. Nele, a metáfora sobre como o homem, cego, constrói uma nova sociedade, sem leis e sem piedade, ganha contornos sociais bastante pulsantes. A angústia da Mulher do Médico (as personagens não têm nome, são, assim, singulares em sua pluralidade) – a única que consegue enxergar naquele surto – e sua doação ao marido e ao que ela defendia como certo mostram um Saramago que, desiludido, encontra na mulher o novo caminho político do mundo. É de doer de tão bonito.

O filme é tão tocante que o próprio escritor – ele mesmo, o sisudo, o seriíssimo, o descrente – emocionou-se ao assisti-lo em sua casa, em Lanzarote. Entre lágrimas, declarou a Meireles, que ali estava com ele: “Fernando... estou tão feliz por ter visto esse filme... como estava quando acabei de ler o livro.”
(Duvida? http://www.youtube.com/watch?v=cfrzAOpmeVw )
Sim. Apesar de carrancudo, o velho (Sara)Mago se sentia feliz.