pH Indica
Era Uma Vez
21/8/2008

Ele mora em um barraco da favela. Ela em um prédio de classe alta em Ipanema, no Rio de Janeiro. Entre o morro e a praia se desenrola o romance entre Dê e Nina, uma atualização do clássico de Shakespeare ‘Romeu e Julieta’. A fábula do amor impossível aqui não encontra obstáculos na rivalidade ou no ódio entre as famílias; também não existe o empecilho de nenhum triângulo amoroso. É a distância social e econômica, o abismo cultural e geográfico que dão o tom trágico à paixão improvável dos dois jovens.

Do mesmo diretor de ‘Dois filhos de Francisco’, Breno Silveira, o filme vale por retratar o Rio de Janeiro e seus contrastes. As atuações dos atores também mereceram destaque na imprensa. De brinde, você ganha citações ao livro ‘Cidade Partida’, de Zuenir Ventura, que – para quem não o leu – aponta a fenda cruel de uma cidade linda, mas polarizada entre morro e asfalto.

Tudo bem, a crítica considerou o filme raso, previsível e até preconceituoso. Mas Shakespeare, ainda que em uma releitura romanceada, sempre vale a pena; lembrar dos desafios do Rio como realidade urbana cheia de contradições também é sempre útil; apreciar nossos cartões-postais é sempre um prazer carioca; e a oportunidade de repensar e desconstruir os maniqueísmos apresentados pelo filme – como a associação simplista entre favela e violência ou a visão idealizada da Europa como paraíso escapista – será sempre enriquecedora. Portanto, se você já viu o ‘Batman’ e a idéia for assistir a algo diferente dos hits de bilheteria do cinema americano, ‘Era uma vez’ pode ser uma ótima pedida para o fim de semana.

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